Você consegue pensar em festa?

Há um ano fomos colocados dentro de casa com um anúncio de que uma pandemia estava se fixando em nosso país. Não sabíamos ao certo o que era, mas como estávamos vivendo desenfreadamente, até que não foi tão ruim passar uns dias quietinha curtindo a família, comendo como se não houvesse amanhã e maratonando séries na televisão.

Só que uma semana depois o que parecia ser ‘legal’ para unir famílias e nos trazer para o prumo se tornou um pesadelo. Hoje não há um cidadão sequer que esteja com sua saúde em perfeito estado. Não tenho dados nem estatísticas mas duvido muito que alguém que esteja vivendo esse momento de pandemia esteja com a mente sã e corpo pleno.

Em 2020 os adiamentos de datas substituíram os dias de festa e a ‘promessa’ de que em 2021 as coisas iam melhorar nos davam esperança. E assim seguimos. Assim segui. Tive meus surtos, como muitos devem ter tido, tive meu momento revolta, meu momento acolhedora e solidária. Muita revolta também, afinal vemos coisas diariamente que enchem de tristeza e desânimo nosso coração, enquanto estamos impedidos de trabalhar por uma justa causa outras pessoas agem como se quatro mil mortes em 24 horas não significassem absolutamente nada.

Essa brigaiada politica, a busca pelo poder, o manda e desmanda tem deixado o Brasil cada vez mais perverso. Não quero ser pessimista, mas não consigo acreditar que teremos seres humanos mais humanos quando tudo isso acabar, temos que ser conscientes agora enquanto as coisas estão acontecendo, depois que passar, a probabilidade de cair no esquecimento todo o sofrimento é grande. Sim, eu acredito que vai acabar, nada dura para sempre, nem mesmo as coisas boas da vida, quiçá as ruins, então, corona vírus tem data para nos deixar em paz… Só não sei quando…

Eu ia entrar numa outra questão, a do ‘quando’, mas não quero me alongar aqui, e na verdade o que eu quero dizer com o artigo deste mês é que me encontro num momento em que não consigo falar do meu trabalho. Não consigo atender noivas novas e ‘comprar’ a ideia delas de um casamento dos sonhos (Casamento lê-se festa, porque casamento em sua real essência é só ir até o cartório e está tudo certo, já que eles estão funcionando normalmente). Também estou esgotada de ter que ‘segurar a barra’ emocional das noivas que estão adiando seus sonhos pela terceira vez e muito frustradas por tudo isso. Ouvir as lamentações dos colegas fornecedores que estão há trezentos e tantos dias sem poder trabalhar, consequentemente sem receber (…) Ahhh gente, que difícil!! Quem está trabalhando normalmente e tendo seu salário caindo na conta todo quinto dia útil jamais vai entender nossa angústia. (Pois é, tem muita gente nessa cômoda situação de estar vivendo suas vidas normalmente, sorte a delas).

Voltando ao assunto do meu atendimento, me sinto mesquinha e egoísta por estar triste com e por elas por um adiamento de uma festa, sendo que existem pessoas no leito de morte, estas sim, podendo nunca mais realizar seus sonhos.

Tudo está muito incerto e confuso. Parece que a prioridade tomou outro rumo.

Eu gostaria muito que meu trabalho fosse relevante, mas agora ele não é, por isso não consigo e nem quero falar dele. Eu sei que em breve ele será, teremos muitos motivos para festejar e agradecer por este momento que pode nos ensinar muitas coisas, uma delas é permanecer em silêncio quando não temos absolutamente nada a dizer.

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