Tradições e práticas na zona rural – segunda parte

É justamente esse naturalismo que nos encanta nas telas de Almeida Júnior, aproximando obra, autor e povo; contribui para a construção de identidade de uma gente e sua terra, fato importante, pois valoriza aqueles esquecidos ou se não, pouco mencionados pela história geografia e/ou qualquer outro meio erudito.

Pode-se observar na tela o “saber fazer’’ tão presente no cotidiano rural. Vê-se que o caipira está picando o fumo, ou seja, ele mesmo fazendo seu produto de consumo, o cigarro de palha. No livro Modo de Vida Caipira nas Obras de Almeida Júnior (2010), a professora Durce Gonçalves Sanches sugere que no ato de fumar o seu cigarro, o caipira estaria de certo modo tendo um refúgio ou distração para suas mágoas.

Caipira picando fumo (1893)

Observa-se a roupa despretensiosa, muitas vezes feita a mão (é comum de se ver até os dias de hoje costureiras que fazem no meio rural vestimentas, panos bordados para cozinha e mantas para dormir). A camisa aberta no peito, calça dobrada pouco acima da canela, palha sobre a orelha para pôr o fumo e pés descalços. Ao fundo, a casa de pau-a-pique demonstrando mais uma vez o aspecto rústico do modo de vida caipira.

Quando um membro de um bairro iria construir sua moradia (como a representada na tela), os outros membros do bairro o ajudavam nos afazeres, promovendo um verdadeiro “mutirão” e ali erguiam o rancho. Tendo finalizada a obra, era feita uma bela alimentação como recompensa pela ajuda e esforço dos outros da comunidade. A prática do mutirão pode ser analisada não só como um momento de ajuda mútua, mas também como meio de estreitar laços afetivos entre os moradores dali e arredores, ficando evidente o sentimento de pertencimento para com o local e identidade com seus habitantes; uma visão cosmopolita no bairro rural, tal como exemplifica Antônio Candido em Parceiros do Rio Bonito.

Muitas práticas e tradições do meio rural sofreram mudanças, principalmente com a forte industrialização e avanço do meio urbano no decorrer do século XX. As exigências do capitalismo foram obrigando o caipira a se adequar a um novo ritmo de vida onde o tempo livre foi dando espaço ao trabalho com fins meramente econômicos, e não mais misturando-se a diversão. Por exemplo, o mutirão é uma prática que, segundo relatos de alguns moradores do bairro rural do Varejão em Itu, já não é mais praticada como há anos, dando lugar aos prestadores de serviço vindo dos meios urbanos. (Relatos da família de João Arruda no ano de 2015).

(Continua…)

Um bom fim de semana a todos.

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Caio Vinícius Dellagiustina

Jornalista

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