Tijolos / Coleção / Fontes Históricas – Parte I

O texto que segue foi publicado no mês de junho no site da Academia Saltense de Letras, fiz algumas adaptações e terá continuidade nas próximas duas semanas. Boa leitura!

O trabalho de um historiador é baseado na construção de narrativas acerca do passado ao analisar as fontes históricas. É comum escutarmos a expressão enganosa que “a história estuda o passado”. Na verdade, o que os historiadores investem seu tempo e energia são nas interpretações que são feitas sobre o passado, e é aí que as fontes históricas aparecem, dando os sentidos para questionamentos pré-estabelecidos na mente do pesquisador.

Uma pesquisa histórica é algo muito sério, não cabe julgamento de valores, mas sim interpretações e cuidados ao olhar uma fotografia do início do século XX, uma pintura do período renascentista, um texto publicado em jornal do século XIX, enfim, a variedade e os cuidados são imensos para quem pratica o ofício de historiador.

Exemplo disso foram os achados arqueológicos que revelaram a presença dos primeiros moradores do território que hoje leva o nome de Salto, refiro-me aos indígenas Guaianazes, do tronco Tupi-Guarany. Entre os anos de 1980 e 1990, foram encontradas Igaçabas com ossadas, dando a interpretação de que tal objeto teria sido utilizado como urnas funerárias para a aldeia denominada Paraná-Ytu. Tais objetos, junto às pontas de flechas, podem ser vistos no Museu Municipal Ettore Liberalesso.

O estudo da vida indígena na cidade é algo que merece uma atenção de todos nós, entender de onde de fato viemos e saber que muito da nossa cultura de hoje provém da herança dos nativos. Citei o fato como exemplo para mostrar a riqueza de informações que uma fonte histórica, vestígios deixados por populações que atuaram antes de nós, são fundamentais para o trabalho com a história. Neste sentido, “fonte histórica é, em essência, conhecimento por meio de documentos”. (VEYNE, 2014)

“As fontes históricas, além de permitirem que o historiador concretize o seu acesso a determinadas realidades ou representações que já não temos diante de nós, permitindo que se realize esse “estudo dos homens no tempo” que coincide com a próprio História, também contribui para que o historiador aprenda novas maneiras de enxergar a História e novas formas de expressão que poderá empregar em seu texto historiográfico.” (BARROS, 2013)

Diante disso as fontes se abrem para novas abordagens, novas problemáticas, é impossível separar a fonte histórica do historiador. Pois bem, o presente texto busca trabalhar com um tipo fonte que é interessante aos olhos deste que aqui escreve, um tipo de fonte que aprendi há algum tempo a olhar como historiador e a colecionar como curioso, são os tijolos antigos. Toda vez que passo por construções ou reformas em centros de cidade, dou uma olhada nas caçambas de entulhos para verificar se existe algum “tijolinho” com símbolos ou letras, se minha busca for positiva, recolho e levo para casa. Tenho alguns das cidades de Itu e de Salto.

Era comum que as formas dos tijolos de barro, vamos entender com o olhar de historiador como “fonte da cultura material”, tivessem as siglas do nome de quem tinha uma olaria ou do dono da casa que fosse mais afortunado. As possibilidades para trabalhar com eles são diversas, podemos tentar entender a forma de trabalho nas olarias, a vida das pessoas que (literalmente) construíram as cidades, enfim, o repertório se abre para inúmeras possibilidades. Uma delas é saber a biografia e contexto histórico das pessoas ou instituições que possuem suas siglas marcadas nos objetos.

Posts Relacionado

Tijolos / Coleção / Fontes Históricas – Parte II

Continuação… Inicio com um dos preferidos da coleção, o F.F.B. Trata-se de um tijolo que almejava há algum tempo e via muitos dele no Museu de Salto. A sigla é a abreviação de Francisco Fernando de Barros, mais conhecido como Barros Jr. Ele veio parar

Marcando um encontro consigo mesmo

Você que começou a ler esse texto, peço licença para falar com seu lado mais íntimo, onde ninguém consegue entrar a não ser que você permita. Obrigada. Ter alguém tão perto de nossos pensamentos, principalmente daqueles mais sombrios ou tão perto dos nossos sentimentos, que normalmente