Será que já podemos voltar?

Já tem uns dias que observo nas redes sociais as pessoas retomando suas vidas antes da pandemia que afligiu mundialmente a todos. Entendo que é um tanto quanto angustiante ficar em casa e ser limitado a fazer coisas que antes eram comuns para seres humanos comuns, porém, como ainda não sabemos ao certo com o que estamos lidando, a prevenção ainda é o melhor remédio.

Muito tempo em casa fez com que muitos ligassem o ‘tô nem aí’, máscara e álcool gel e vamos à luta, não podemos mais parar, ouvi isso esses dias. Tudo bem, não podemos, mas e aí então? Como será que ficamos?

Pessoas se casando livremente, oferecendo festas sem segurança, convidados despreocupados, noivos desmascarados, bebida rolando solta (…)

E por falar em casamento, até Gretchen hein? Se bem que essa adora um ‘sim no altar’ não entra na estimativa.

Como assessora e cerimonialista eu deveria querer muito que as pessoas se casassem logo, que a vida seguisse seu rumo e que outros sonhadores aparecessem. Adoraria. Mas não posso ser irresponsável e me expor a uma situação tão caótica pelo simples desejo fútil de se unir em casamento num século onde só morar junto já é considerado união estável e traz todos os benefícios de um protocolo de casamento dito ‘politicamente correto’ pela sociedade em caso de um divórcio ou viuvez.

Quando um casal insiste em realizar o casamento nessas circunstâncias, colocam suas vidas em risco, vidas de amigos e familiares e a nossa, de fornecedores que infelizmente dependemos desse trabalho para viver e se negar a realiza-lo trará prejuízos financeiros. E é aí que ficamos num beco sem saída, prejuízo financeiro ou prejuízo de saúde?

Sim, porque pode até ser que (Deus nos livre) não testemos positivo ao covid, mas o desgaste emocional, a tensão, a preocupação de estarmos ali no meio de um aglomerado de pessoas irresponsáveis que dançam, bebem, riem e se divertem no meio de um turbilhão de acontecimentos ruins em nosso pais, nos faz impotentes e nos transporta para um lugar de muita dor. Ao fim do evento já colecionamos dores físicas e agora dores emocionais.

Infelizmente numa situação dessas, dificilmente os fornecedores conseguem executar seus serviços com maestria, pois o distanciamento é sim obrigatório, atender aos noivos e aos convidados fica mais limitado e o que vira? Uma festa qualquer, num sábado qualquer, tipo aquele ‘churras’ dos amigos sabe? Se bem que, de acordo com os protocolos que nos foram enviados, se realmente fossemos seguir, as pessoas adiariam suas festas, porém como não há fiscalização e o brasileiro é um povo que tem dificuldade em levar leis a sério, sempre dão um jeito de burlar a linha amarela e sair disparado para a verde.

Depois de um desgaste emocional de no mínimo, 12 horas de trabalho, como chegar em casa? Se banhar de álcool gel? Cabeça a milhão com pensamentos e preocupações tudo porque há um ano, assinamos um contrato felizes pela família que iria se formar, e agora a família está formada mas, quais serão as consequências dessa ‘alegria’ movida a bebida e música alta? Isso não pode ser amor, se expor a situação de risco em benefício próprio. Não acredito que o casamento seja algo tão importante a ponto de não poder ser adiado por uns meses.

Uma vez já escrevi aqui um artigo dizendo que o amor é mais simples, pois já havia observado o crescente índice do casamento ostentação, aquele em que as pessoas casam para se mostrar para os amigos, onde há competição entre o casamento mais badalado, nos quais, o divórcio é certeiro em menos de dois anos. Nesses oito anos dedicando minha vida ao sonho dos outros, vi muita coisa. Vi gente simples casando para se mostrar e gente muito abastada casando com simplicidade. Já vi noivo bêbado no altar sem saber o que estava fazendo ali. Noiva com o amante no banco do padrinho. Já vi a festa de casamento se tornando uma raivi com drogas e sexo rolando solta pelo salão e nós, equipe do cerimonial, tendo que acionar a segurança do espaço.

Sou grata a esse 2020 que me fez enxergar que nada disso vale a pena. Porque o amor é sim bem mais simples, ele é responsável e ele sabe que ainda não está na hora de voltar.

Avatar

Caio Vinícius Dellagiustina

Jornalista

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *