Saudades de uma Festa Caipira

O mês de junho passou muito rápido, também fez muito frio. Nesta última semana as mãos estavam congelando, sair para trabalhar de manhã exigia um sacrifício imenso, levantar da cama cedo, água gelada para lavar o rosto e escovar os dentes, o “gelo” ao abrir a porta da casa para entrar no carro.

O mês, o frio e a saudade de uma boa Festa Junina, impossibilitada de acontecer devido aos avanços da pandemia de COVID-19 no Brasil. Saudade de aproveitar o tempo e jogar conversa fora ao redor de uma fogueira acesa, tomar quentão ou vinho quente, deliciosos quitutes feitos de milho e escutar uma boa moda de viola.

Quantos elementos prazerosos presentes em uma Festa Junina, Festa de São João ou Festa Caipira. Isso mesmo! Uma festividade do nosso povo, da gente do interior, de pessoas que falam o R retroflexo, ainda que já misturado a outros linguajares de outras regiões do Brasil. Fogueira, milho, viola devoção popular ao Santo, tudo isso é característica de um modo de vida, é parte da formação cultural do antigo homem do campo, uma “cultura rústica”, como definiu o professor Antônio Cândido.

A fogueira é um elemento já presente em rituais da tradição indígena que foi herdada pelo caipira e estava presente durante as prosas nas noites sem energia elétrica, esquentava a família, ou melhor, a “famia” toda no rancho feito de barro. O “mio” (milho), assim como a mandioca, já estava presente na alimentação dos nativos, mais um elemento que se manteve vivo na cultura (entenda aqui o termo no sentido de cultivo) dos paulistas descendentes de índios, portugueses e africanos, muitos que outrora foram bandeirantes ou seus descendentes e fixaram-se em lugares que posteriormente se tornariam cidades como Itu, Salto, Santana de Parnaíba, Porto Feliz…

A viola é uma herança européia, a moda de viola que se propaga principalmente após os anos de 1930, com a ascensão do rádio, leva para vários lugares e ouvintes as narrativas do dia a dia do caipira, suas angústias, seus anseios, sonhos, as características naturais de onde viveram sendo entoadas em letras e melodias pelos violeiros em famosas duplas sertanejas.

Um modo de vida que constitui um universo de saberes, de espontaneidade, de relação próxima com o outro e com o meio ambiente, de saber se em determinado dia vai chover ou “fazer Sol” só de olhar para as nuvens, de desenvolver os “pios” imitando sons idênticos aos dos pássaros, de esquentar o fogão à lenha às quatro horas da manhã e mantê-lo aquecido durante o dia todo, à noite, fogueira, cachaça ou café e muita moda de viola. Antes de dormir, a benção de Nossa Senhora.

Um bom fim de semana a todos!

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