O Samba de Terreiro em Salto

O texto que segue foi escrito pela amiga e Profª Lilian Solá Santiago, uma pessoa que, em alguns minutos de prosa, a gente sai repleto de conhecimento. Uma boa leitura a todos.

Nesta coluna publicada em 6 de dezembro, o historiador Marco Ribeiro escreveu sobre o samba de terreiro de Itu, a partir do importante registro do sociólogo Otavio Ianni sobre essa manifestação em nossa região, e é com prazer que aceitei seu honroso convite para escrever aqui sobre as memórias do samba de terreiro em Salto.

A partir das pesquisas realizadas para o desenvolvimento da Casa da Memória Negra de Salto, tivemos acesso a importantes relatos sobre essa manifestação. Um dos principais guardiões dessa memória é o Sr. José Roberto Castro, conhecido na cidade como Major, que participou das rodas de samba desde a infância acompanhando seu pai. Major nos conta que o samba acontecia em diversos pontos até meados de 1950: em casamentos, batizados e festas particulares, o samba acontecia nos terreiros das casas da região central ou do então distante bairro do Buru, lugares que concentravam grande parte da população negra saltense. Já em dias de festas de santos, principalmente nos festejos juninos de São João, São Pedro e Santo Antonio, após a missa, os sambadores se reuniam principalmente na Praça Vieira Tavares ou no campo do Guarani, hasteando a bandeira de São Benedito para demarcar o território e fazendo uma enorme fogueira em volta da qual tocavam, cantavam, dançavam, comiam e bebiam até o sol raiar.

O samba de terreiro, também conhecido como samba de bumbo ou samba rural, está na raiz do samba paulista. “O que domina é o ritmo, o peso, a bulha violenta da percussão, as melodias primárias e uma brutalidade insensível”, descreve Mario de Andrade no ensaio “Samba Rural Paulista”. O bumbo é um instrumento ibérico, incorporado pela população negra nessa prática, geralmente formando um quarteto com reco-reco, tambor e caixa. Principal elemento dessa manifestação, o enorme bumbo é tocado revezadamente por um homem, ao redor do qual as mulheres dançam rodando suas longas saias, avançando sobre o bumbo ou vice-versa, acompanhadas pelos versos, tradicionais ou improvisados no calor da hora. Em Salto, segundo Major, o bumbo se chamava “sete léguas”, posto que dava para ser escutado a sete léguas de distância, e seu dono era o Sr. Nestor Vieira. “João Pinto é um homem bão, João Pinto é um homem bão, João Pinto trouxe até o garrafão” – é um dos versos improvisados nas rodas de samba de bumbo saltense, que agradecia a João Pinto pelo garrafão de pinga que trazia de Itu para o samba em Salto.

Até meados do século XX no estado de São Paulo também era comum a visita anual ao santuário católico de Pirapora. Para a tradicional festa religiosa em comemoração ao Bom Jesus, os romeiros iam a pé, a cavalo ou de caminhão e há muitos registros fotográficos das saídas dessas viagens nos acervos particulares das tradicionais famílias negras saltenses. Depois da procissão e da missa, “o pau comia” nos barracões que abrigavam sambadores de várias cidades: sambadores de Salto uniam-se aos que vinham de todo Estado, contribuindo para que o local se tornasse o mais importante palco de encontro das diferentes modalidades de samba e berço do samba paulista.

Tendo como referência o universo original da cultura banta (região centro-sul africana), o patrimônio cultural material e imaterial da população negra paulista e saltense se caracterizam pela união entre o sagrado e o profano, e isso se percebe nas mais diversas ações e comportamentos. A partir das memórias presentes nas fotografias, dos instrumentos guardados como verdadeiras relíquias, dos batuques passados de geração em geração, das comidas feitas nas cozinhas animadas, sempre acompanhadas de orações e cantigas, busca-se reconstituir o jeito de ser e viver dos povos bantos em África, onde não há distinção entre sagrado e profano, onde tudo é sagrado porque viver é sagrado.

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