Marcando um encontro consigo mesmo

Você que começou a ler esse texto, peço licença para falar com seu lado mais íntimo, onde ninguém consegue entrar a não ser que você permita. Obrigada.

Ter alguém tão perto de nossos pensamentos, principalmente daqueles mais sombrios ou tão perto dos nossos sentimentos, que normalmente são tão incoerentes e que até mesmo nós por vezes queremos esquecê-los, é muito assustador! Ter alguém entrando pelas portas que dão acesso a nossa história de vida, com todas as nossas cenas vivas e acontecendo em tempo real, alguém que imaginamos olhar pela janela e ver como fomos abandonados, injustiçados, enganados, ou quando nós abandonamos, enganamos, erramos conosco e com o outro dá medo. Então, nosso mecanismo de defesa identifica o risco como uma grande ameaça e dispara o alarme aos gritos: Terapia não é para mim! Sei resolver tudo sozinho! Não gosto de falar de mim para estranhos! Só gente fraca precisa de psicólogo! E por aí vai!

Ainda hoje algumas pessoas resistem à ideia de fazer psicoterapia. Se empenham em criar justificativas para evitar esse encontro consciente consigo mesmo, momento esse revelador e transformador. Revelador de quem somos e transformador para quem queremos ser. Metaforicamente, somos um navio construído no “chão firme”, no Porto, por nossos entes queridos. Concluída essa etapa, somos lançados ao mar, sozinhos, para navegar. Durante a vida desse navio, para vencermos os desafios dessa jornada, precisamos de evolução, de manutenção e de melhorias. No nosso caso, a psicoterapia é um dos parceiros para analisar e oferecer oportunidade de realizarmos essas melhorias. Cada um de nós aprendeu a ser aquilo que nossos amados nos disseram e isso é bom, entretanto, colecionamos também medos e bloqueios diversos que passaram para nós, que apesar de permanecerem ocultos nos cantos escuros da nossa mente, direcionam nossas escolhas e atitudes ao longo de toda nossa vida. 

Nossa rotina competitiva, o conflito entre realidade e redes sociais, o ritmo acelerado dos acontecimentos, atualmente a pandemia, são anúncios de que nossa vida está acontecendo, mas que na correria, parecem mais infortúnios do que o próprio viver. Viver passa a nos assustar e nos fazem retornar para esse lugar que temos escondido e que está cheio de tesouros e velharias. É de lá que tiramos tudo o que temos de ferramentas para enfrentarmos o momento presente. Ou seja, cada situação nova exige ferramentas novas e muitas vezes estamos com estoque grande de medo, mágoas, raiva, insegurança, que são ferramentas que nos atrapalharão no enfrentamento de qualquer projeto saudável. Nosso problema não está naquilo que está acontecendo, nem na pandemia, nem nas mudanças que precisamos fazer, mas sim, na falta de ferramentas para enfrentarmos as situações.

A dinâmica de consultório principalmente no atendimento a pacientes oncológicos, é a dinâmica da grande descoberta de si mesmo. O anúncio de um câncer escancara todas as portas do passado e tudo fica à mostra para a própria pessoa, que sozinha, tem mais dificuldade para encontrar e selecionar dentro de si, o seu melhor, para usar durante essa nova caminhada. Novo anúncio exige novas ferramentas. Tudo está dentro de cada um de nós. O tratamento oncológico é na verdade, uma oportunidade de reescrevermos, reeditarmos a nossa própria história. Isso só se torna possível quando nos conhecemos e potencializamos o nosso melhor, que muitas vezes nem temos consciência que existe, ali, prontinho, a nossa disposição para facilitar a nossa vida.

Então, vencendo nosso medo de olhar para dentro, vamos arriscar e marcar um encontro e passear um pouco por esse lugar tão misterioso?

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