Ela sonhava

Aliás, a vida toda dela era um verdadeiro sonho!

O sonho em pequenina de ter todas as bonecas que desejasse e o dinheiro pudesse comprar. Teria todas elas de todas as cores, de todas as roupinhas, de todas as que houvessem para serem compradas. Seriam dela.

Depois sonhou em ter quantos cadernos de tantos tipos existissem. Caligrafia, desenho, brochura, espiral, capa mole, capa dura e haja querer ter cadernos. Queria mesmo era morar numa livraria, pois só lá haveriam os lápis de cor, as canetas e canetinhas e os lápis com borracha na ponta, que nunca seriam usadas porque enfeiariam os lindos lápis de borracha na ponta, tão lindos quando não usadas as borrachas da ponta. E usar para que, se ela teria todas as borrachas de todas as cores e de todos os formatos que inventaram?

E os livros. Teria todos eles, para quando quisesse abri-los e ali aprender. Seria culta. O tipo de cultura que só o ler pode dar. Foi sonho acalentado até o fim dos seus dias.

E enquanto esteve na escola, sonhou que todos os melhores professores seriam os seus, que pudesse chamá-los um a um quando quisesse e deles extrair a solução para cada uma das suas dúvidas. Aquelas que só professores nos ajudam a elucidar, pela capacidade que só professores possuem.

Sonhou ter uma família para chamar de sua, só sua! Individualista que era. “Meu marido, meus filhos, minha casa, meu cachorro, meu gato e minha vida, em família.”

Como também antes, se ressentiu ao ter e dividir pai, mãe, irmãos, avós, tios e primos. Como não podiam ser só seus? “Meu pai, minha mãe, meu avô, minha avó” e assim vai, na mente da menina que vivia de sonhar. Não conseguia só se alegrar, pois tinha. Mas deveria.

Desejou em sonho, que todos os seus fossem absurdamente felizes e que, o sendo, espalhassem felicidade ao redor, que todos os que convivessem com eles, se sentissem contaminados por tanta felicidade que se multiplica ao viverem o amor dos sonhos dela. Amor de família. Que nem sua individualidade se negava a dividir, com quem buscasse alento em entender que só se vive feliz junto. E dentro.

E, depois de tanto sonhar, acordou.

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Caio Vinícius Dellagiustina

Jornalista

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