Dona Aurora, boa prosa e uma cristaleira

Conhecemos, há algum tempo, uma senhora muito simpática que muito gentilmente nos recebeu em sua casa para prosearmos sobre a história de seu pai, o músico saltense José Maria Marques de Oliveira, mais conhecido como Zequinha Marques e a cada dia que íamos até a casa de Dona Aurora, éramos recebidos com a grande atenção de Dona Tereza, cuidadora e companheira daquela forte senhora de 95 anos.

Impressionante era sua força física e sua memória pois relatava detalhes da vida do seu pai e maestro assim como da história da música em Salto. Paula e eu a visitávamos e, entre um café da tarde e outro, fazíamos anotações, dávamos risadas, analisávamos documentos e, o mais importante de tudo, aprendíamos e nos divertíamos com suas histórias, que tiveram frutos: uma sequência de textos publicados aqui no dedinho de prosa. A história do pai contada pelos olhos da única filha ainda viva.

Conhecemos Dona Aurora através de uma conversa com a Dona Neusa da Banca do Sebo do Saber que, após uma prosa sobre o músico; e foi justamente minha amiga do sebo que nos colocou em contato com Tereza. Muitos textos aqui desta coluna surgiram após uma visita à banca, foi tema até mesmo de uma apresentação de trabalho em uma disciplina no curso de pós-graduação, pelo tanto de coisas que ali aprendemos.

Pois bem, era segunda-feira, no final da tarde, quando recebemos a mensagem que nos deixou extremamente chateados, Dona Aurora havia nos deixado aos 98 anos de idade. Imediatamente vieram à tona as boas lembranças de nossos encontros, ela sempre sorridente e orgulhosa ao falar do pai. Fiquei sabendo que, mesmo quando já estava com a memória falhando, lembrava do casal que estava pesquisando sobre a vida do Zequinha. Dona Tereza lia para ela todos os textos que saíram sobre o pai aqui no jornal.

Esses dias mesmo compramos uma cristaleira e lembramos dela aqui em casa, ela possuía uma enorme coleção de cristais que jamais foram usados. Paula ficou apaixonada! Tinham copinhos para licor, tigelinhas para sobremesas, tudo limpo e bem cuidado, resultado de anos colecionando junto a já falecida irmã. Quando minha esposa viu a cristaleira na cozinha, ficou deslumbrada com tantos itens e dona Aurora, muito envaidecida, contou-nos com carinho sobre seu xodó, que por amar tanto sua vasta coleção, jamais teve o prazer de desfrutá-la, apenas admirá-la em uma vitrine.

Dona Aurora não mais acordará aqui em nosso plano terrestre. Uma excelente companhia, ficamos nós aqui a admirar e contemplar as tardes em que juntos rimos e em que tanto aprendemos sobre música e costumes em Salto. Registramos nosso pesar por tal triste notícia e emanamos daqui da Terra boas energias para que ela tenha o merecido descanso.

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