Carroça vazia

“Certa manhã meu pai, muito sábio, convidou-me a dar um passeio no bosque e eu aceitei com prazer.

Ele se deteve numa clareira e depois de um pequeno silêncio, me perguntou:

-Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?

Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:

-Estou ouvindo um barulho de carroça.

-Isso mesmo, é uma carroça vazia.

-Como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?

-Ora, é muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça, maior é o barulho que faz.

Tornei-me adulto e até hoje, quando vejo uma pessoa falando demais, gritando (no sentido de intimar), tratando o próximo com grosseria inoportuna, prepotente, interrompendo a conversa de todo mundo e querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai dizendo:

‘Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz.'”

Continho antigo, sem autoria definida, vez ou outra me recordo dele.

E a cada encontro com uma pessoa barulhenta, que quer conseguir os seus quereres no berro, que sempre se acha certa, que não se envergonha ao gritar com outra pessoa, que intimida mesmo, que é esta forma a única que conhece de se expressar, eu sinto, além de tudo ou sobretudo, pena. Não é normal que não se possa conversar e na conversa, no entendimento, na discussão saudável, resolver todas as questões. Não é normal a necessidade de conquista, sem argumentação clara. Não é possível que alguém consiga se sentir bem agindo desta maneira.

Aí então, entra o me penalizar de tal pessoa, o desejo de que ela busque ajuda profissional para conseguir ser de outra maneira, em que se sentirá muito melhor, inclusive consigo mesma. Não é pelo outro que digo. É por quem vive dentro deste turbilhão e não consegue dele, escapar.

E fico a pensar que já conheci pessoas assim e, depois de muito tempo afastada, porque não dá mesmo para se viver perto de uma “carroça vazia”; saber que a pessoa buscou ajuda e hoje, consideram-na (quem é obrigado a conviver) curada.

Mesmo que não conviva mais, fico de coração quentinho ao sabê-la melhor.

Então, amigo ou amiga que se sente dentro do continho ali, busque ajuda. Ao se sentir salva, salvará todos os outros ao derredor que não podem, por familiaridade, viver longe de ti.

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