A “diferente” quarentena de quem não pode parar

Tirar jaleco e sapatos antes de entrar em casa, ir diretamente ao banho e até mesmo evitar contato com familiares. Essas medidas entraram na lista de cuidados da Stefanny Bourguignon, de 32 anos.

Enfermeira de Salto, que atua na Santa Casa de Porto Feliz, Stefanny precisou adotar medidas drásticas até a situação do coronavírus se tranquilizar. “Não está sendo fácil, temos nossos medos e receios, porque temos nossas famílias em casa nos esperando, além de lidar com uma equipe que também tem seus medos, e não pode, em nenhum momento, demonstrar, pois temos que nos mostrar fortes”, conta.

Desde que a pandemia chegou ao Brasil, cidades brasileiras estão tomando medidas diárias para conter o avanço da doença. Isso mudou significativamente a rotina dos profissionais da saúde. “No trabalho, passamos a usar os EPIs corretos. Também intensifiquei mais ainda a higienização das mãos. Em casa, chego não abraço meu filho, meu marido, separo a roupa que cheguei do trabalho e vou direto para o banho”, explica.

Para a enfermeira, estar na chamada “linha de frente” no combate ao coronavírus, requer muitos cuidados e gera muita preocupação. “A sensação é de medo, pois não tenho só a mim a zelar, tenho outras pessoas em casa que também precisam de mim. E sei que também preciso dar o meu melhor para cuidar das pessoas que estão precisando de mim no hospital”, diz.

Embora relate que no hospital onde trabalha o movimento diminuiu nos últimos dias, Stefanny ressalta que muitas pessoas ainda não entenderam o significado da quarentena. “A maioria acha que é uma gripe igual ao H1N1, que ter que ficar em casa é férias. Acredito que essas pessoas só vão achar que a coisa é séria quando perder alguém que está ao seu lado”.

Atendimento ao público

Outros profissionais também estão no “olho no furacão”. É o caso de quem trabalha nas farmácias, onde o contato com o público continua ocorrendo diariamente. O farmacêutico técnico Maurício Fernandes, de 42 anos, conversou com a reportagem do PRIMEIRAFEIRA e explicou que o movimento na drogaria onde trabalha até aumentou nos últimos dias. “Até o momento, a vinda das pessoas na farmácia está sendo normal. Na verdade, o movimento aumentou devido a procura por máscaras, álcool em gel e luvas cirúrgicas”, disse.

Questionado sobre como tem sido enfrentar essa situação, no dia a dia, Maurício revela que o maior problema tem sido a falta de alguns produtos. “Está sendo estranho, pois ninguém estava preparado para tal situação. O que temos sofrido muito é a falta dos produtos, pois a procura tem sido grande, mas não temos previsão de quando irá chegar”.

Conviver com máscaras e luvas durante todo o expediente faz com que a forma de trabalho se transforme em dias de tensão. “A correria mudou tudo. Dá um certo medo, pois é um vírus super perigoso, ao qual temos que nos prevenir muito para que ele realmente não seja espalhado. Por isso, idosos e pessoas de risco devem ficar em casa, sim”, diz o Maurício.

Outro aspecto que precisou ser modificado foi o convívio familiar. “Ainda não cheguei ao ponto de precisar me afastar dos meus familiares, mas aumentou muito alguns cuidados necessários para ajudar na prevenção, como higiene das mãos, as roupas precisam ser lavadas todos os dias e postas ao sol, a residência precisa estar desinfetada, sempre passando álcool nas fechaduras, nas chaves, e nos sapatos”.

Mas quando indagado sobre a conscientização das pessoas diante dessa pandemia, a resposta do farmacêutico não é animadora. “Alguns entendem a gravidade da situação, outros, infelizmente, não. Mas se cada um fazer a sua parte vamos conseguir passar por este momento rapidamente”, finaliza.

Em um supermercado da cidade, a rotina de trabalho do segurança Pedro Queiroz, de 42 anos, teve uma significativa alteração nesta semana. Além de cuidar de todo monitoramento no local de trabalho, o contato com o público passou a ser direto. Com máscara no rosto, luvas na mão e segurando um frasco com álcool em gel, Pedro higieniza todas as pessoas que entram no supermercado. “Tivemos de mudar um pouco o comportamento. No meu caso, que estou trabalhando na entrada da loja, precisamos ter um cuidado maior. Com relação aos clientes, estamos recebendo um feedback bem positivo. Eles estão elogiando as ações de controle, segurança e higiene que estamos tendo”, conta.

Mesmo com mudanças na forma de trabalho, Pedro diz que o importante neste momento é manter o foco. “Minha rotina mudou bastante. Eu fazia a ronda em toda a loja e hoje fico na entrada, controlando o acesso dos clientes e distribuindo álcool em gel. Temos procurado ter todo o cuidado possível com os clientes e com nós mesmos”.

O segurança não esconde a preocupação com o vírus, mas diz que o importante neste momento é o trabalho. “Todos estamos sujeitos ao risco do vírus, mas estou tranquilo. Estou levando um dia após o outro, mas precisamos trabalhar”, descreve.

Já em casa, o contato diário com os familiares precisou ser modificado. “Tenho redobrado a segurança, até por conta dos meus pais serem pessoas de idade. Então, saio daqui e faço a higiene normal e troco as peças de roupa constantemente”.

Mas o segurança fez uma revelação importante. Apesar de todas as recomendações para que, especificamente, os idosos permaneçam em casa, em Salto, não tem adiantado muito, pelo menos quando o assunto é fazer compras. “Os idosos continuam vindo normalmente. Poucos mudaram sua rotina”, fala Pedro.

Mais trabalho

Em escalada global, o coronavírus está provocando desafios gigantescos à saúde pública e ao convívio social. A pandemia tem modificado padrões de trabalho, limitado a circulação de pessoas e deve gerar consequências econômicas ainda incertas para os mais diversos setores. Mas um setor específico está tendo crescimento diante dessa crise: os serviços de delivery. Para o motoboy Rainier Machin, de 37 anos, o trabalho de entregas cresceu aproximadamente 40% nesta semana, quando o período de quarentena teve início. “A quantidade de pedidos tem aumentado significativamente, com a necessidade de colocar mais um motoboy em alguns dias devido o movimento”.

Em contato direto com o público, o motoboy explica que precisou adotar algumas medidas para ter um pouco mais de segurança e tranquilidade. “Estou trabalhando com máscara e com borrifador de álcool. A cada entrega, antes de pegar a encomenda para o cliente, eu higienizo as mãos. Se for cartão, a maquineta também é higienizada e não abro o capacete para mais segurança. Após ter entregue a encomenda para o cliente, higienizo novamente a maquineta e as mãos. Toda vez que retorno a lanchonete, higienizo os manetes, as manoplas da moto e a chave, além da bag de entrega tanto na parte interna quanto externa. Fora isso, a máscara é higienizada a cada uma hora mais ou menos”, explica.

Rainier também detalha que vários clientes estão se confundindo no momento de confirmar como deve ser feita a entrega. “Quando o pedido é feito por um aplicativo, o cliente tem a opção de escolher se quer entrega em mão ou a distância. Muitos escolhem a distância, mas não sabem nem como funciona. O cliente tem a opção de pegar na bolsa ou pedir para deixar na porta ou em outro lugar que lhe agrade. Porém, muitos pedem para entregar a distância, mas efetuam o pagamento junto ao motoboy. Aí não adianta nada”.

E sobre o fato de ter mais trabalho, exatamente quando a ordem é para ficar recluso, Rainier é taxativo: “Não está sendo normal, mas nada difícil, pois penso na economia local que não pode parar. Penso nas pessoas que não podem sair de suas casas e também no comércio que não pode parar devido seus compromissos a honrar”.

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Caio Vinícius Dellagiustina

Jornalista

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